5 de outubro de 2026

Depois das urnas

Uma eleição tem uma característica particular: participamos de uma decisão cujo resultado não depende individualmente de nós. Podemos nos informar, escolher e votar, mas o desfecho será produzido por milhões de outras pessoas e terá consequências compartilhadas. Por isso, um resultado eleitoral pode mobilizar sentimentos muito intensos. Há quem experimente alegria e alívio, enquanto outras pessoas sentem medo, raiva, tristeza ou desesperança. Essas reações não surgem apenas porque preferíamos que algo tivesse acontecido de outra maneira. Decisões políticas interferem na vida concreta. Mudanças nas leis, na economia, nas políticas públicas, na proteção de direitos e no acesso a recursos não […]
28 de setembro de 2026

Por que sentimos falta de lugares?

Você passa por uma rua onde não ia há anos e reconhece uma janela. Lembra do caminho que fazia a pé, de onde costumava sentar, da luz de determinada hora do dia. Pode ser a casa onde cresceu, o apartamento de uma fase da vida, a cozinha dos avós, uma cidade onde morou ou um lugar aparentemente banal que frequentava com alguém. A saudade de um lugar é curiosa e complexa, não sentimos falta apenas das paredes, das ruas ou da paisagem. Há uma parte da nossa história que ficou associada àquele espaço. Habitamos os lugares também emocionalmente. Aos poucos, […]
21 de setembro de 2026

Sobre a incerteza e a busca por controle

Grande parte da vida acontece sem garantias. Não sabemos exatamente como uma relação vai se desenvolver, quanto tempo uma fase difícil vai durar, o que o outro está pensando, se uma escolha dará certo ou como estaremos daqui a alguns anos. Mesmo quando fazemos planos cuidadosos, existe sempre uma parte da realidade que permanece fora do nosso alcance. Conviver com essa condição exige recursos psíquicos. A incerteza nos coloca diante de algo que a psicanálise conhece bem: a impossibilidade de dominar completamente a realidade, o outro e até aquilo que acontece dentro de nós. Sentimentos podem ser contraditórios, desejos nem […]
14 de setembro de 2026

Quando agradar se torna necessidade

Ser atencioso, fazer concessões, considerar o que o outro precisa e ajustar o próprio comportamento às circunstâncias são recursos importantes para a vida em relação. Acontece que, para algumas pessoas, a forma de se relacionar é organizada em torno de agir sempre em conformidade com o que (se imagina que) o outro espera. A pessoa se torna bastante hábil em ler o outro, consegue antecipar expectativas, evita assuntos que poderiam gerar conflito e pensa cuidadosamente no modo de dizer alguma coisa para não desagradar. É comum aceitar convites sem querer ir, concordar automaticamente em conversas, assumir responsabildiades indesejadas, explicar demais […]
8 de setembro de 2026

Por que uma crítica pode machucar tanto?

É seguro afirmar que a maioria das pessoas não gosta de receber críticas. O que muda de pessoa para pessoa é a forma com que cada uma reage à elas. Uma observação feita durante uma reunião pode reverberar por horas, ou uma frase dita por alguém próximo pode ser repassada mentalmente inúmeras vezes. Pode surgir irritação, vergonha, vontade de se explicar, ou uma sensação incômoda de ter sido atingido em um ponto difícil de localizar. A intensidade da reação nem sempre parece proporcional ao que foi dito. Isso acontece porque a crítica chega a um terreno que já tem história. […]
31 de agosto de 2026

Criar, brincar, viver

Sabe quando você faz um monte de coisas, executa tarefas, cumpre prazos, organiza tudo, resolve problemas, mantém a produtividade lá em cima… e ainda assim termina o dia com a sensação que esteve pouco presente naquilo tudo? Winnicott oferece uma ideia interessante para pensar esse fenômeno. Para ele, a criatividade não se restringe à produção artística ou à capacidade de inventar algo original. Ela diz respeito a uma maneira de experimentar a própria existência, na qual aquilo que fazemos conserva alguma ligação com nossos gestos espontâneos, nossos interesses e nossos desejos. É nesse sentido que o brincar ocupa um lugar […]
25 de agosto de 2026

O esforço de corresponder o tempo todo

Existe um tipo de cansaço, que não tem a ver com a quantidade de tarefas da vida: é aquele que resulta do esforço contínuo para funcionar de um jeito específico, dia após dia. Winnicott chamou de falso self uma organização psíquica que se forma como resposta às exigências do ambiente. O nome engana: não se trata de mentira ou de um personagem construído de propósito. Em alguma medida, todos nós precisamos nos adaptar. Só que, com o tempo, essa adaptação ocupa tanto espaço que a espontaneidade encontra poucas possibilidades de expressão. É como se o que há de mais verdadeiro […]
18 de agosto de 2026

Sobre a capacidade de estar só

Tem gente que passa um fim de semana inteiro sozinha e sai dele leve, descansada. E tem gente que, se passa pouco tempo sem ninguém por perto, já sente um vazio difícil de nomear. Mais do que uma questão de perfil ou personalidade (ser mais caseiro, ser mais agitado…), essa diferença costuma contar a história de como cada um de nós aprendeu a habitar a própria companhia. Winnicott fala sobre a capacidade de estar só e a descreve como uma conquista do desenvolvimento emocional, que começa a tomar forma ainda na infância. Pense em uma criança entretida com sua brincadeira […]
11 de setembro de 2021

Fragilidade e esperança

Fragilidade e esperança Da fragilidade do ser, ninguém está imune. Mais que a fragilidade do corpo (tão em voga ultimamente), e até muitas vezes (mas não necessariamente) enraizada nela, falo das fragilidades emocionais – os românticos chamariam de fragilidades da alma. Corpo e alma, uma divisão conceitual que na prática revela uma intersecção de impossível dissociação.  O corpo adoece, as emoções são profundamente afetadas. E vice-versa. Cada ser humano se depara com um abismo dentro de si. Há aqueles que se encorajam a jogar luz nesse abismo escuro e olhar para ele. Há os que fecham os olhos e tentam […]
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