
Ser atencioso, fazer concessões, considerar o que o outro precisa e ajustar o próprio comportamento às circunstâncias são recursos importantes para a vida em relação. Acontece que, para algumas pessoas, a forma de se relacionar é organizada em torno de agir sempre em conformidade com o que (se imagina que) o outro espera.
A pessoa se torna bastante hábil em ler o outro, consegue antecipar expectativas, evita assuntos que poderiam gerar conflito e pensa cuidadosamente no modo de dizer alguma coisa para não desagradar. É comum aceitar convites sem querer ir, concordar automaticamente em conversas, assumir responsabildiades indesejadas, explicar demais uma recusa.
Para essas pessoas, agradar é uma estratégia que em algum momento fez sentido: manteve vínculos, evitou conflitos, garantiu um lugar seguro perto de quem importava. Porém, em dado momento, a possibilidade de decepcionar alguém passou a ser acompanhada por culpa, medo de rejeição ou pela sensação de estar sendo egoísta, mesmo quando se trata apenas de expressar uma necessidade legítima.
Quando a capacidade de adaptação (fundamental no desenvolvimento emocional) passa a ocupar espaço excessivo, não sobram possibilidades de espontaneidade nem de expressão de desejos próprios. Esses, aliás, podem ficar tão escondidos que nem a própria pessoa os reconhece mais.
Compreender esse funcionamento envolve reconhecer o lugar que a aprovação do outro adquiriu na história e perceber quanto espaço existe, nas relações atuais, para que a adaptação conviva com a expressão espontânea de si.
Na prática, comece com pequenas pausas antes de responder a um pedido ou aceitar um convite, perceba a sua própria disposição em vez de considerar primeiro a reação do outro. Tente suportar o desconforto que pode surgir quando alguém se frustra, sem concluir que houve uma falha na relação. Aos poucos, comece a diferenciar cuidado de submissão, disponibilidade de obrigação e consideração pelo outro de abandono das próprias necessidades.
Encontrar os próprios desejos, criar possiblidades de trazê-los à vida, e ainda assim manter os vínculos preservados pode ser uma experiência nova e assustadora, mas, se levada adiante, é libertadora!