
Você passa por uma rua onde não ia há anos e reconhece uma janela. Lembra do caminho que fazia a pé, de onde costumava sentar, da luz de determinada hora do dia. Pode ser a casa onde cresceu, o apartamento de uma fase da vida, a cozinha dos avós, uma cidade onde morou ou um lugar aparentemente banal que frequentava com alguém.
A saudade de um lugar é curiosa e complexa, não sentimos falta apenas das paredes, das ruas ou da paisagem. Há uma parte da nossa história que ficou associada àquele espaço.
Habitamos os lugares também emocionalmente. Aos poucos, seus sons, cheiros, objetos e percursos tornam-se familiares e passam a compor o cotidiano. Em certos ambientes sabemos onde deixar as coisas, como atravessar um cômodo no escuro, qual janela abrir. Podemos simplesmente estar ali sem precisar prestar atenção o tempo inteiro ao que nos cerca.
Winnicott deu grande importância a essa experiência. Para ele, o bebê só consegue desenvolver uma sensação de existir de forma contínua (o que chamou de continuidade de ser), quando conta com um ambiente confiável que o sustenta sem exigir que fique em alerta o tempo todo. Ao longo da vida, alguns lugares seguem cumprindo essa função, oferecendo um cenário estável enquanto a vida acontece e nós nos transformamos. Eles testemunham rotinas, relações, períodos difíceis e diferentes versões de quem fomos.
Então, quando um lugar deixa de existir para nós, a perda pode ultrapassar a dimensão do espaço físico. Uma casa vendida continua existindo, mas já não podemos entrar nela como antes. A cidade permanece no mapa, embora a vida que tínhamos ali tenha terminado.
Quando sentimos falta de um lugar, podemos estar sentindo falta também de quem éramos ali, das pessoas que faziam parte daquele cotidiano e das possibilidades de vida que existiam naquele momento. Isso não significa que desejamos voltar ou que o passado tenha sido melhor.
Certos lugares se tornam referências internas da nossa história. Seguimos adiante, mas continuamos carregando algo deles conosco. Por isso, há lugares aos quais nunca retornamos e que, de alguma forma, nunca deixamos completamente.