
Uma eleição tem uma característica particular: participamos de uma decisão cujo resultado não depende individualmente de nós. Podemos nos informar, escolher e votar, mas o desfecho será produzido por milhões de outras pessoas e terá consequências compartilhadas.
Por isso, um resultado eleitoral pode mobilizar sentimentos muito intensos. Há quem experimente alegria e alívio, enquanto outras pessoas sentem medo, raiva, tristeza ou desesperança. Essas reações não surgem apenas porque preferíamos que algo tivesse acontecido de outra maneira.
Decisões políticas interferem na vida concreta. Mudanças nas leis, na economia, nas políticas públicas, na proteção de direitos e no acesso a recursos não atingem todas as pessoas da mesma forma. Para quem percebe aspectos importantes da própria vida ameaçados por essas mudanças, o medo não pode ser reduzido a uma dificuldade de tolerar frustrações ou incertezas.
A dimensão psíquica continua existindo. Quando nos sentimos ameaçados, podemos ficar mais vigilantes, acompanhar notícias continuamente, tentar antecipar cenários, ter dificuldade para dormir ou para nos afastar do assunto. A intensidade dessas reações dependerá tanto das circunstâncias concretas em que cada pessoa vive quanto de sua história e de seus recursos para lidar com elas.
A psicanálise não precisa (e nem deve) transformar uma realidade social em um problema exclusivamente individual para poder pensar sobre seus efeitos. O mundo externo sempre participa da constituição da nossa experiência emocional.
Reconhecer o que está acontecendo, distinguir aquilo que já é realidade daquilo que ainda tememos que aconteça e encontrar pessoas com quem seja possível pensar pode ajudar a não permanecer sozinho diante dessa experiência.
Diante de um cenário preocupante, elaborar o que sentimos não significa concluir que nossos medos são infundados. A elaboração emocional pode ser necessária ao mesmo tempo em que a realidade exige informação, proteção, apoio e ação no mundo concreto. Uma coisa não exclui a outra.