
É seguro afirmar que a maioria das pessoas não gosta de receber críticas. O que muda de pessoa para pessoa é a forma com que cada uma reage à elas. Uma observação feita durante uma reunião pode reverberar por horas, ou uma frase dita por alguém próximo pode ser repassada mentalmente inúmeras vezes. Pode surgir irritação, vergonha, vontade de se explicar, ou uma sensação incômoda de ter sido atingido em um ponto difícil de localizar.
A intensidade da reação nem sempre parece proporcional ao que foi dito. Isso acontece porque a crítica chega a um terreno que já tem história. Nós a escutamos a partir da imagem que construímos de nós mesmos, das nossas inseguranças, das expectativas e do lugar que o reconhecimento dos outros ocupa em nossa vida.
Por exemplo, uma pessoa cuja identidade esteja fortemente apoiada em ser competente. Ela se acostumou a resolver problemas, dar conta das responsabilidades e ser reconhecida por isso. Um comentário sobre um erro no trabalho pode, então, deixar de ser sobre aquele erro específico e passar a questionar o valor dessa pessoa inteira.
“Cometi um erro” é vivido internamente como “sou incompetente”.
A psicanálise ajuda a compreender por que essa passagem acontece. Nossa experiência de quem somos vai se constituindo nas relações desde o início da vida e continua sendo transformada por experiências posteriores. Aos poucos, e se tudo der certo, a construção de um sentimento de si vai adquirindo consistência e continuidade ao longo do desenvolvimento.
Quando alguma dimensão da identidade, por um motivo ou vários, não se tornou suficientemente consistente, acaba dependendo intensamente da confirmação externa. E então, uma crítica dirigida a ela pode se tornar bastante dolorida.
Nossas reações à crítica dizem bastante sobre a forma como estamos organizados psiquicamente. Vale observar quais comentários reverberam por mais tempo, o que sentimos que está sendo colocado em questão e por que precisamos tanto que determinada característica seja reconhecida.
Uma crítica fala sobre uma situação. O modo como ela repercute dentro de nós conta uma história maior e mais antiga sobre nós mesmos.