
Sabe quando você faz um monte de coisas, executa tarefas, cumpre prazos, organiza tudo, resolve problemas, mantém a produtividade lá em cima… e ainda assim termina o dia com a sensação que esteve pouco presente naquilo tudo?
Winnicott oferece uma ideia interessante para pensar esse fenômeno. Para ele, a criatividade não se restringe à produção artística ou à capacidade de inventar algo original. Ela diz respeito a uma maneira de experimentar a própria existência, na qual aquilo que fazemos conserva alguma ligação com nossos gestos espontâneos, nossos interesses e nossos desejos.
É nesse sentido que o brincar ocupa um lugar tão importante em sua teoria. Brincar não significa apenas uma atividade infantil. No sentido winnicottiano, brincar é a experiência de explorar o mundo e se relacionar com ele sem que tudo já esteja decidido de antemão por uma cobrança externa. Na vida adulta, idealmente o brincar (sob essa ótica) permanece no trabalho, na cultura, nos relacionamentos, no humor, numa conversa ou mesmo no modo particular de preparar uma refeição.
Podemos ser muito produtivos sem experimentar essa qualidade. Uma pessoa pode executar seu trabalho com competência e perceber que há anos não sente curiosidade pelo que faz. Pode preencher o tempo livre com cursos, exercícios e compromissos, transformando até o descanso em uma atividade que precisa apresentar resultados. Pode terminar uma tarefa e, antes mesmo de registrar alguma satisfação, procurar a próxima.
Não que produtividade seja um problema. Há momentos em que a vida exige disciplina, repetição e tarefas pouco interessantes. A questão aparece quando fazer muito se torna a principal medida de que estamos vivendo bem.
Para Winnicott, sentir que a vida é própria envolve mais do que funcionar adequadamente. Envolve conservar alguma possibilidade de surpresa, interesse e participação subjetiva naquilo que se vive. Envolve, primordialmente, sentir que se vive uma vida que vale a pena ser vivida.